quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

A inflação e a demanda interna


Conversava com um ilustre economista um dia desses e debatíamos o problema econômico enfrentado atualmente pelo Brasil. Na conjuntura mundial atual vivemos uma “guerra cambial” provocada, como afirmam alguns especialistas, pelas moedas Yuan e Dólar estarem desvalorizadas. Vamos entender o motivo de ocorrer isso e o seu impacto direto nos preços domésticos brasileiros utilizando à microeconômica.

A economia é interagida pelos meios de trocas. Imaginemos dois países que produzem o bem minério de ferro e computador. Ambos são dependentes desses bens e criam mecanismos para elevar a produtividade, só que a particularidade de cada país torna o país mais produtivo em um dos bens, demandando o excedente por meio de relações comerciais entre eles. Agora aplicaremos como premissa básica que as importações e exportações líquidas desses países estejam equilibradas no início de nosso exemplo. Na economia de equilíbrio existem várias teorias que remontam o que descrevi acima como o modelo Heckscher-Ohlin e/ou mesmo o modelo clássico de vantagens comparativas, proposto por David Ricardo, dentre outros.

Como os economistas vivem de hipóteses, aceitaremos para o modelo proposto as seguintes afirmações: o país A é mais produtivo que o país B em minério de ferro, enquanto o inverso é conhecido para o bem computador; para cada produção de computador é necessário 1.000 kg de minério de ferro; só existem esses dois bens como meio de troca; a equivalência em produção de computadores do país B em relação ao A na mesma quantidade de horas trabalhadas é na paridade 3 para 1; e, por último, que o país A produza na mesma quantidade de horas trabalhadas quatro vezes mais minério de ferro do que o país B.

Diante dessas informações teremos a seguinte conclusão: em quatro horas de trabalho o país A produziu 16.000 kg de minério de ferro e quatro computadores; enquanto o país B produziu 4.000 kg de minério de ferro e doze computadores. Agora coloque a mesma quantidade populacional nos dois países. Se cada pessoa demandar computador e no momento de nossa contagem existir 100 pessoas em cada país, duzentos computadores deverão ser produzidos para atender toda a demanda, não existindo excedente ou escassez desse bem.

Para a economia fluir no equilíbrio, usarei uma matemática simples e didática. Chamarei de X o bem computador e Y o bem minério de ferro. Diante dessa análise teremos a seguintes expressões:

Demanda do país A: X + 4Y = 100
Demanda do país B: 3X + Y = 100

Fazendo as contas teremos que X = 300/11 e Y = 200/11. Analisando esses resultados perceberemos que X é maior do que Y em 100/11 unidades. O que concluir disso? Que a demanda é maior para computadores do que para minério de ferro. Daí que surge o problema!

Como o mundo demandará mais computadores, este, portanto, valorizar-se-á no mercado e agregará mais serviços que influenciam na sua produção em detrimento do minério, que é apenas um insumo a mais na confecção de um computador.

No segundo momento o país A perceberá que produzir computador é um bom negócio e incentivará seu país, distorcendo toda a relação comercial que estava em equilíbrio, aumentando a oferta de computadores inferiores em relação aos que são produzidos no país B. Este último perceberá que a oferta de minério diminuiu na medida em que o país A demandou mais tempo para produzir computadores, elevando os custos e, consequentemente, o preço final do bem. Ou seja, pela obsessão do país A, a economia sai de um nível de bem-estar social equilibrado para uma marginalização social. Os países estarão piores.

O que tiramos dessa análise? Que o olho grande desequilibra e diminui a riqueza dos países. A China tem bens inferiores que muitos países no mundo, principalmente os que são ofertados pelos europeus, japoneses e americanos, mas mantém sua taxa cambial desvalorizada (política de câmbio fixo) para ofertar ao mundo produtos de baixa qualidade. Com as elevadas importações de produtos chineses ao resto do mundo, a sua economia doméstica fica totalmente vulnerável por pressões inflacionárias e desequilíbrios fiscais, aumentando o controle estatal, principalmente na administração de preços de bens ofertados à demanda interna daquele país.

Os Estados Unidos produzem bens desde os primários aos de altas tecnologias. Eles são a principalmente economia mundial. O PIB americano corresponde a 1/4 da economia do resto do mundo. Eles sofrem atualmente com a deflação doméstica e índices inflacionários no momento seriam bem sucedidos e também a abertura do país ao turismo. Diante disso, eles elevam a oferta de dólares pelo mundo, desvalorizando sua moeda, para ganhar em competitividade e atratividade, com vistas à recuperação de sua economia doméstica. Só que no momento o seu principal oponente é a China.

Diante dessa conjuntura, o que o Brasil tem a ver com isso? Tudo! Somos uma economia emergente e nossos bens vão de comuns (commodities) a de baixa qualidade ou artesanal. Competimos mercado com os produtos chineses e perdemos em competitividade na conjuntura atual. Não produzimos bens de alta definição tecnologia que nos coloque em posição de destaque aos olhos do mundo. Como commodities é o nosso principal mercado, com a elevação na oferta de dólares e o câmbio desvalorizado, fora os fatores climáticos, subiram os índices de preços domésticos, principalmente os não administráveis, como salão de beleza, restaurante serve service, por exemplo, que não são competitivos com bens importados, elevou os custos dos serviços impactando indiretamente no IPCA (Índice de Preço ao Consumidor Amplo – índice oficial de inflação), além dos combustíveis, que por serem commodities e está supervalorizado atualmente estimaram os custos logísticos das empresas.

Conversava com esse estimado economista e ele me disse, e concordo com ele, que o nosso principal problema é de oferta e não de demanda. Só vermos o crescimento populacional  de 1970 pra cá, quanto o Brasil tinha uma população na faixa de 90 milhões e hoje tem 100 milhões a mais, ou seja, mais que 100% de crescimento em 40 anos. Diante disso, o governo gerou algumas benevolências que ampliou a demanda agregada e não incentivou o aumento da oferta (fazendo a reduzir ainda mais com a geração de oligopólios com captações de empréstimos no BNDES) provocado por políticas fiscais tortas, principalmente no governo Lula. E a presidente eleita ainda mantém o Guido Mantega, o causador de todos os nossos males, mais quatro anos no cargo.

A “guerra cambial” não é culpa da economia de equilíbrio racional, mas sim do simples desejo de quando a farinha é pouca, o meu pirão primeiro. O desejo da ganância política, que se pode dizer assim, é a geradora dos desequilíbrios econômicos.

3 comentários:

Anônimo disse...

Guido Mantega não dura 2 anos no governo.

christopher disse...

Bem, pelo visto a "guerra cambial" é inevitável. O que me pergunto é se os EUA realmente desejam que a china valorize o Yuan. Primeiro, isto só faria criar inflação nos EUA e/ou deslocar, o que já está ocorrendo, produção de um país asiático para outro. Afinal, será que acreditam que suas empresas trarão de volta para os EUA as fabricas que transferiram para o exterior? Que serão competitivos nas chamadas tecnologias verdes? Que sua produtividade é tão maior que possam ter mão de obra competitiva?
Um outro assunto: Vou inserir, provavelmente a partir de amanhã este blog como link no meu blog.

Sérgio Ricardo disse...

Christopher,

Obrigado pela lembrança. Já divulgo os seus trabalhos em meu blog. Seus temas são importantes e relevantes.

Em relação aos seus questionamentos eu os considero proeminentes. Mas a sua primeira afirmativa revela que se a China valorizar o câmbio, ela se concentrará mais em sua demanda interna e poderá flexibilizar o câmbio, deixando o comércio exterior mais competitivo, principalmente para os países emergentes.

Os EUA vivem no momento uma crise de deflação e índices inflacionários de acordo com a curva de Phillips nesse momento são bem vistos. A demanda interna americana está desacreditada na economia e seu consumo está defasado, gerando mais oferta do que potencialmente o país necessita.

Este é o meu ponto de vista e que engloba a conjuntural da economia internacional no momento.

Obrigado pelo comentário, tanto seu, quanto do anônimo acima. Em relação a este último eu digo: tomará que suas previsões estejam corretas e que o Mantega saia antes de dois anos.

Abraço a vocês!
Sérgio Ricardo