segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Poupar e investir ou investir e poupar?

A teoria keynesiana indica que o investimento gera poupança. A economia política clássica o inverso. O investimento existirá após a geração de poupança. É um dilema que motiva estudos em macroeconomia e me incentivou a escrever este artigo ligando a temas atuais da realidade brasileira.

Imagine a seguinte questão: você abrirá uma empresa e não tem recursos disponíveis no presente, o que você faz? Se sua resposta foi empréstimo, então você é um keynesiano. Agora, se você acredita que deverá poupar primeiro no presente para no futuro, após prover dos recursos e, em fim, iniciar o processo de investimento, estará inclinado a ser um liberal, assim como eu. Esta foi à forma didática que encontrei para ir direto ao ponto.

Vamos ao que interessa. Olhando pela ótica anterior, o estado brasileiro é liberal ou keynesiano? Com certeza keynesiano. Portanto, para aumentar o nível de poupança doméstica, o Brasil amplia o investimento com recursos que não possui, elevando seu déficit. De onde então o Brasil os recolhe? Do balanço de pagamento, ampliando o crédito externo. Assim, aumentar-se-á o déficit em transações correntes para investir, analógico ao cidadão que recorre a dívidas para alavancar patrimônio.

Assim sendo, existe um preço a se pagar e qual será? A taxa de juros. Para os keynesianos brasileiros abaixá-la jamais! Isto comprometerá os acordos realizados com o resto do mundo. O investidor externo tem que ter garantias reais de que o seu dinheiro será bem empregado e a atratividade vem da rentabilidade de uma taxa de juros alta, que em contrapartida inibe o investimento e a geração de poupança doméstica, dificultando para os agentes econômicos residentes no Brasil, ou seja, os brasileiros, a geração de poupança e a elevação de novos negócios nacional que geram oportunidades de emprego e renda. O custo da moeda doméstica estará elevado e não há incentivos para a produção doméstica, importando os bens comerciáveis do resto do mundo.

Vivemos atualmente no Brasil uma valorização cambial e aumentos excessivos nos gastos do estado, gerando déficits gêmeos. Não temos poupança e pagaremos uma conta alta.

Pense racionalmente se o Brasil está preparado para oferecer ao mundo a copa e as olimpíadas? Todo o investimento que será gerado para esses dois eventos estará no orçamento geral da união, dos estados e dos municípios, ou seja, dinheiro público provenientes de impostos. A iniciativa privada entrará com as mesmas cabeças de sempre, quais são: OAS, Odebrecht, Camargo Correa, etc. Participando de um processo licitatório burocrático e que existirão facilidades, devido ao comprometimento dos principais presidenciáveis que recebem recursos de campanha eleitoral para assumir um projeto de poder. Não há competitividade porque o governo não deixa e os vencedores são conhecidos.

Não vejo em um horizonte de curto prazo a redução de impostos ou diminuição da taxa de juros, ainda na política econômica que existe atualmente de metas de inflação, que recorre à elevação da taxa a qualquer expiro inflacionário por mínimo que seja. A renda do brasileiro cresce ao nível do crédito bancário, cujas taxas estão excessivamente altas. O brasileiro se endivida mais a cada dia, pois não consegue gerar poupanças que ampliem seu patrimônio, a não ser por recorrência de empréstimos.

O que fazer então? Incentivar a geração de micro e pequenas empresas com: 1) incentivos fiscais sistêmicos por intermédio de metas de desenvolvimento e geração de novos negócios; 2) reduzir a burocracia no reconhecimento de patentes, com a diminuição do tempo de apreciação do processo, hoje sobrecarregada no INPI (Instituto Nacional de Propriedade Industrial) e indexada a altas taxas de reconhecimento de marca; 3) e ampliar o acesso da sociedade em instituições geradoras de conhecimento intelectual e de tecnologia.

Não vejo nos principais candidatos à Presidência da República políticas voltadas ao desenvolvimento nacional estrutural e sim a medidas paliativas que maquiam a geração de emprego e renda. O programa Bolsa Família é uma política de primeira necessidade, mas não estruturante, que estigmatize na sociedade o progresso e o reconhecimento de uma economia forte e pujante.

Para tornamos realmente um país desenvolvimento, o Brasil precisa aposentar os keynesianos, mudar a ótica da política econômica, visando de fato um setor produtivo mais forte e não apenas as grandes empresas que recorrem a empréstimos com taxas subsidiadas ao BNDES.

Por fim, façam suas escolhas. Se quiseres continuar com um desenvolvimento maquiado mantenha o que está. Mas você tem outra opção. Busque uma nova agenda economia que de fato inclua os ideais liberais como uma nova alternativa de desenvolvimento, progresso e crescimento. Não fique reticente em sua escolha, os Estados Unidos da América optou pelo liberalismo e se tornou sonho de consumo de muitos brasileiros. Mas, lembro-te que não temos nos principais candidatos ao executivo nacional um projeto que nos leve para essa agenda. Assim sendo, aposentam os liberais antes mesmos que eles assumam.

8 comentários:

Anônimo disse...

Prezado Sergio,

Permita-me discordar em parte do seu post. Acredito que o Brasil, no 1º mandato de lula, fez um governo de grande arrocho fiscal. As consequencias vc ja conhece: pagamento da dívida junto ao FMI, seguidos superávits, aumento das reservas, etc...

Outra questão é a seguinte: Os EUA, tem uma enorme dívida e não me parece que este seja o grande problema de lá. A maior reclamação deles (EUA) é a de a moeda Chinesa esta desvalorizada.

Outro exemplo de que esse argumento não é tão forte é o caso da Coréia do Sul que cresceu muito com repetidos anos de déficits comerciais.

Ps.: Agora só para te dar um exemplo, veja como terminou um dos debates entre Investimento X Poupança.

http://maovisivel.blogspot.com/2010/09/em-algum-lugar-do-passado.html

Marcos Paulo

Anônimo disse...

"Somente um pós-keynesiano engajaria nessa discussão sobre quem vem primeiro, o investimento ou a poupança. Este diálogo não passa de uma manifestação de um vazio cognitivo onde deveria haver um feixe de neurônios gritando: “Tal pergunta não faz sentido, afinal investimento e poupança são determinados simultaneamente!”

Veja mais aqui:


http://maovisivel.blogspot.com/2010/04/o-que-e-o-pos-keynesianismo.html

Sérgio Ricardo disse...

Marcos, eu concordo com os seus argumentos. Até porque o câmbio flutuante no Brasil é determinado pelo preço de mercado. Mas não podemos deixar de entender que a fatia maior dessas reservas vão para o cofre estatal financiar o déficit revelado nas contas públicas recorrentemente. O investimento privado no Brasil é estimulado pelo aumento nos gastos públicos. Veja o exemplo das construções de estádios para abrigar a copa do mundo. Os recursos estão saindo do PAC e alimentando um investimento "maquiado", que resultam em aumento no produto em curto prazo, mas não sustentável. O governo Lula, em grande parte, não é a favor do mercado. Então, se hoje há aumento no déficit comercial é o governo que se financia na grande maioria. Os agentes privados aportam capitais, alguns para especulação, e uma fatia sim aporta para investimento privado. Não podemos esquecer que a presença do estado na economia brasileira é grande e o nível de investimento está modelado na teoria keynesiana. Elevando ainda mais os gastos públicos em curto prazo. Como não existe equivalência ricardiana no Brasil, estímulos públicos hoje, aumento da dívida bruta amanhã.

Obrigado pelo comentário.

Abraço!
Sérgio Ricardo

Sérgio Ricardo disse...

Anônimo disse...

"Somente um pós-keynesiano engajaria nessa discussão sobre quem vem primeiro, o investimento ou a poupança. Este diálogo não passa de uma manifestação de um vazio cognitivo onde deveria haver um feixe de neurônios gritando: “Tal pergunta não faz sentido, afinal investimento e poupança são determinados simultaneamente!”

Sim. Este caso é observado pela economia de mercado em determinação do preço de equilíbrio. Ou seja, o câmbio flutuante é determinado pelo fluxo de divisas. Mas não concordo que apenas os keynesianos deverão levantar o debate. Os liberais têm que confrontar para combater este tipo de raciocínio que defende a intervenção estatal a qualquer expiro no mercado. Veja o governo keynesiano do PT, pretendendo controlar câmbio com aumento de alíquota de IOF. Temos que combater este tipo de postura.

Em relação à Coréia do Sul, publicado no post anterior, ela cresceu com déficits comerciais porque a iniciativa privada aportou destes recursos para investir em sua indústria de base. Por exemplo, no mercado de automóveis. No Brasil aportamos para manter as diretrizes do governo, seja para financiá-lo em sua dívida, seja para investir e aumentar sua participação na economia. É só olharmos os créditos subsidiados do BNDES como exemplo.

Obrigado pelo comentário. Eles são importantes para melhorarmos o debate e o poder de argumentações.

Abraço!
Sérgio Ricardo

Anônimo disse...

"O investimento privado no Brasil é estimulado pelo aumento nos gastos públicos."

"Em relação à Coréia do Sul, publicado no post anterior, ela cresceu com déficits comerciais porque a iniciativa privada aportou destes recursos para investir em sua indústria de base."

É por isso que eu insisto que a saída para essa arataca é uma verdadeira ABERTURA COMERCIAL.

Agora me pergunto: será que a FEBRABAN, a FIESP e os RURALISTAS, querem mesmo concorrer de igual para igual com o mundo?

R: Acho que não. O lucrativo corporativismo (genetico) e a retórica desses grupos caminham em direção diametralmente oposta.

Marcos

Sérgio Ricardo disse...

Concordo!

Por isso eles atacam insistentemente o câmbio. A desvalorização cambial, na forma que nossa economia está hoje, só aumentará a riqueza desses grupos.

Este é um dos motivos que não voto no Serra.

Abraço!
Sérgio Ricardo

Augusto Freitas disse...

Fala, grande Sérgio!

Tô passando rapidamente pra mostrar sinal de vida. Não li o artigo, prometo que lerei logo, é que sexta-feira à noite...

Bom, antes de tudo. MEEEEEEEEEEEEEEEEEEEENGO!

Agora, falando sério, parabéns pela iniciativa. Acredito que os transeuntes deste espaço já estão tendo ótimas resenhas. Participarei delas, sempre procurando contribuir com o que sei e com a minha raiva (provocada pelos vagabundos do nosso país) sempre presente.

Apenas antecipando a minha opinião sobre a solução para o Brasil, que na verdade eu copiei do professor Dr. Marco Aurélio Bittencourt: FUZIL! Bota no paredão e manda bala em todos os calhordas que estão no poder político, e nos do poder econômico, que domina o primeiro.

Voltarei em breve. Grande abraço, e sigamos em frente!

P.S.: Marcos Paulo, eu te amo!

Sérgio Ricardo disse...

Valeu mestre Augusto pela participação.
É importante o debate para a constante melhora das teses.

Forte abraço!
Sérgio Ricardo